Ser vigilante é vigiar quando o perigo é contínuo mas se disfarça

A maldade maior do coronavírus não é ser invisível e atacar a esmo. A maldade suprema é nos fazer esquecer dos perigos maiores. Dedicados a impedir que a covid-19 continue a matar, toda a atenção voltou-se ao novo vírus, como se fosse única ameaça.

O diretor científico da Organização Mundial da Saúde já advertiu sobre algo “ainda pior” – as mudanças climáticas – cujos efeitos iniciais já sentimos e que nosso desdém agrava e nos aproxima do horror. Em 2014, uma pesquisa da UFRJ previu a hecatombe do clima deste 2020, com seca brutal no Sul e chuva torrencial inundando cidades do centro do país. Fingimos não ouvir e continuamos a tratar o planeta como inimigo, não como nosso lar.

No Rio Grande, a estiagem destruiu boa parte da nossa agricultura, mas não nos interessamos em sanar as causas do problema. Ao contrário, o governador (com apoio do Legislativo) mudou o Código Estadual do Meio Ambiente, facilitando a devastação irresponsável da cobiça.

Os combustíveis fósseis – a começar pelo carvão mineral – são a causa principal do horror das mudanças climáticas, mas aqui não falamos da mina a céu aberto, junto ao Rio Jacuí, a 12 km em linha reta da Capital, que pode transformar o Guaíba numa pestilenta lixeira líquida, como lembro sempre. Se não nos interessamos sequer pela água (que é vida), por que dar atenção a sarampo, dengue e outros vírus que pareciam extintos?

Não se conhece a origem exata do novo coronavírus, que se desenvolveu em ambiente degradado pela poluição do ar, terras e águas. Não há horror que nasça da limpeza e da higiene. Só há poucos anos a China entendeu que a alavanca do seu progresso não podia continuar a ser o carvão mineral. O irrespirável ar das cidades chinesas faz com que, ao longo daquele país, há anos, todos usem máscaras como as que utilizamos aqui pela covid-19.

Em tempos de perigo, reiterar alertas e cuidados não é defeito, apesar de enfadonho. Ser vigilante é vigiar quando o perigo é contínuo mas se disfarça. Já pensaram onde estaríamos se a imprensa não alertasse sobre o vírus maldito?

Por Flávio Tavares, em GaúchaZH

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